"Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, [...] honesto, [...] justo, [...] puro, [...] amável, [...] de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai." (Fp 4.8)
O PENSAR CRISTÃO: O QUE OCUPA A SUA MENTE?
O cristão deve ocupar sua mente sempre com as coisas mais nobres da existência, mencionadas na Escritura, as quais delineiam o Fruto do Espírito.
Leitura Semanal
Texto Bíblico
Filipenses 4.8-9 8 Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai. 9 O que também aprendestes, e recebestes, e ouvistes, e vistes em mim, isso fazei; e o Deus de paz será convosco.
Introdução
O cristianismo produz uma forma de pensar e viver completamente diferente, o que pode ser chamado de contracultura, já que os cristãos, por essência, não são do mundo (Jo 17.16), não são amigos do mundo (Tg 4,4), não vivem segundo seus valores (Rm 12.2), não amam o mundo e, por isso, não se deixam moldar por seus padrões (1 Jo 2.15). Deus chamou a igreja para um movimento transformador, uma luta contra o pecado, entendendo que essa batalha não é física, mas espiritual (Ef 6,12). Com esse pano de fundo, o apóstolo Paulo se encaminha para o crepúsculo da sua carta, fazendo um chamado à sabedoria, em que ele, com sua destreza habitual, usa termos já conhecidos filosoficamente para ensinar o Evangelho arrastando as virtudes da moral helênica para serem analisadas petas lentes do Evangelho. Ou seja, os filipenses, conforme a verdade da fé em Cristo Jesus, poderiam pensar, refletir, sobre o que se apresentava como virtuoso e admirável, de uma forma geral, no mundo.
Tópicos da Lição
ENTRE DOIS MUNDOS
Paulo, o privilegiado homem culto
Paulo, nome romano do famoso Saulo, perseguidor da Igreja Primitiva, era um judeu fariseu zeloso, da descendência de Benjamim, respeitado pelos adeptos do judaísmo e homem de confiança das maiores lideranças. Cidadão romano por nascimento, o que lhe conferia uma gama de privilégios, era detentor de uma vasta cultura secular, sendo inclusive poliglota. Era grande mestre da retórica, notabilizou-se entre os da sua geração. Criado aos pés do Rabino Gamaliel, era um exemplo de religioso ortodoxo, até o dia em que teve um real encontro com Jesus. Conhecimento é importante, mas Paulo é um exemplo de que nada transforma mais a vida de alguém do que um encontro verdadeiro com Cristo.
Paulo, o homem que transformou “ouro" em “esterco"
Paulo era um homem de dois mundos, os quais se uniram peculiarmente após sua queda e conversão na estrada de Damasco. Quanto ao seu passado de glória humana — aduz que, ao ter seus olhos espirituais abertos, reputou tudo o que tinha conquistado anteriormente como esterco (gr. skubala), para que pudesse ganhara Cristo (Fp 3,8). Com isso, o cosmopolita Paulo não estava dizendo que desprezava completamente a cidadania romana, a cultura helênica ou a teologia judaica, mas que elas serviam para 'adubar' o caminho da fé que ele estava palmilhando. Desse modo, Paulo traz essa poderosa metáfora quando diz que reputa o seu passado como esterco, dando a dimensão de sua entrega e a reavaliação radical de valores quando da conversão cristã, em que Cristo se tornou o bem supremo e inigualável, em nada podendo ser comparado àquilo conquistado anteriormente.
Paulo, o apologista
Desde seus primeiros passos na fé em Cristo, ainda na cidade de Damasco, passou a fazer ardorosa defesa da fé. Enviado como missionário, seja entre os pobres, ricos, bárbaros, judeus, seja no palácio de César, entre reis ou filósofos, sempre anunciava a Cristo com muita ousadia. Sua atuação não se limita à pregação, mas também à defesa intelectual da fé, confrontando idéias filosóficas, religiosas e culturais com a centralidade de Cristo (At 9.19-22,27-29; 17.16-34; 26.1-29; 28.16-31). Assim, torna-se instrumento de Deus para influenciar profundamente a formação do pensamento cristão no mundo antigo (Rm 1.14-16).
UM CHAMADO À SABEDORIA
"Quanto ao mais, irmãos"
Com a expressão “quanto ao mais” e o vocativo “irmãos”, Paulo se prepara para encerrar a dimensão “exortatória” dessa “carta da amizade”, e, assim, estimula os filipenses a, como ele também o fez, reputarem como “adubo" aquilo que trouxeram cultural e filosoficamente do tempo passado, e que, sob a ótica do Evangelho, pudesse ser considerado como verdadeiro, nobre, correto, puro, amável e admirável. Ou seja, Paulo sugere que os filipenses ajam com discernimento em relação ao que aprenderam nas “bibliotecas" da vida.
Virtudes da alma
Segue uma lista de valores que devem orientar o pensamento cristão: a. Verdadeiro: A verdade encontra-se no Evangelho e, por isso, tudo que é verdadeiro deve ser interpretado como tudo que encontra respaldo nas Escrituras, opondo-se ao erro e à mentira; b. Honesto: Paulo está ensinando osa qui que tudo que for “honroso”, "nobre” ou “digno de respeito”, deve ser digno de consideração. c. Justo: O termo justiça alcança um patamar elevadíssimo no Reino de Deus (Mt 5.20). Dessa forma, o que é “justo” ou “correto” não é definido pelo entendimento humano, mas como Deus enxerga a circunstância. d. Puro: Esse termo relaciona-se com a palavra “santo”, assumindo conotação moral. Nesse sentido, “tudo o que for puro" diz respeito ao que não é manchado pelo pecado. e. Amável: O termo grego para amável êprosphiles, que também pode significar aceitável, agradável. O cristão, que possui o jeito de pensar de Deus, por ser nova criatura, entenderá se, numa ideia Lançada, num pressuposto estabelecido, existe ou não algo de amável, aceitável, agradável ao Senhor. Somente o Espírito Santo poderá esclarecer, caso a caso, o que aceitar ou não. f. Boa fama: As coisas admiráveis, elogiáveis, sob o olhar do Espírito Santo, devem ser admitidas e difundidas no pensamento cristão. Mesmo não sendo da categoria de exclusiva “espiritualidade”, a boa fama se constitui em pressuposto do Reino de Deus. Jesus ensinou que as nossas boas obras deveriam ter “boa fama” (Mt 5.16), embora não devéssemos realizá-las para receber aplauso (Mt 6.2,5,16). A boa fama é melhor que o unguento precioso (Ec 7.1)
"Nisso pensai"
O conselho de Paulo para os filipenses era ocupar o pensamento, ponderar, refletir. “Nisso pensai" significa que o crente deve ocupar sua mente com aquilo que edifica, fortalece e glorifica a Deus, vivendo como cidadão do céu (Fp 3.20), ainda que peregrino na Terra (1 Pe 2.11). O discernimento espiritual torna-se, assim, essencial na vida de todo salvo em Cristo.
UM CHAMADO À PIEDADE
Aprendestes e recebestes
No desfecho do “chamado à sabedoria”, Paulo conclui com “um chamado à piedade”. As virtudes anunciadas deveriam ser levadas em consideração à luz daquilo que “aprendestes, e recebestes, e ouvistes, e vistes em mim” (Fp 4.9). Paulo estava aconselhando o que ele mesmo fazia, o qual sabia entrar e sair do meio do povo, bem parecido com o pedido feito por Salomão a Deus (1 Rs 3.9; 2 Cr 1.10).
Isso fazei
Ortodoxia e ortopraxia caminham juntas. De nada adianta conhecer os pressupostos teóricos, a sã doutrina, se, no dia a dia, a conduta difere diametralmente daquilo em que se crê. Isso se constitui fundamental, indispensável, pois viver o Evangelho não se resume somente em palavras, mas, sobretudo, comportamentos adequados, boas obras a serem realizadas (Ef 2.10).
O Deus de paz será convosco
Paulo diz que o resultado de uma vida de discernimento, prática e fidelidade é a presença do próprio Deus de paz. Não,se trata apenas de uma sensação de paz, mas da presença ativa de Deus governando a vida do crente. A paz não é apenas um estado emocional, mas uma realidade espiritual que acompanha aqueles que vivem segundo o Evangelho. Dessa forma, não há lugar para a ansiedade quando essa paz é uma realidade diária em nossas vidas.
Conclusão
Paulo faz uso de termos utilizados frequentemente pelos filósofos gregos e sábios judeus, não para os valorizar, mas para apresentar que o nosso padrão são condutas realizadas pela santificação do Espírito. As mentes humanas pensaram, estabeleceram "virtudes", mas somente o Fruto do Espírito apresenta-se capaz de produzir comportamentos eticamente comprometidos com o Reino de Deus.
Hora da Revisão
Contracultura.
Paulo traz essa poderosa metáfora, dando a dimensão de sua entrega e a reavaliação radical de valores quando da conversão cristã, em que Cristo se tornou o bem supremo e inigualável, em nada podendo ser comparado àquilo conquistado anteriormente.
De nada adianta conhecer os pressupostos teóricos, a sã doutrina, se, no dia a dia, a conduta difere diametralmente daquilo em que se crê.
Uma realidade espiritual que acompanha aqueles que vivem segundo o Evangelho.